Dizer isso para alguém com o peito apertado e o coração disparado parece crueldade. Mas é exatamente o que a Teoria Polivagal do Dr Stephen Porges (pesquisas e estudos sobre neurobiologia)— abordagem que contribuiu para o tratamento de traumas — nos convida a considerar.

E quanto mais eu trabalho com pessoas que carregam esse peso, mais essa frase faz sentido para mim.Não como provocação.

Como alívio.

Quando digo que a ansiedade “não existe”, não estou dizendo que o sofrimento não é real. Estou dizendo que ela não é uma doença abstrata da sua mente, nem uma entidade que tomou conta do seu corpo.

O que chamamos de ansiedade é, na maior parte das vezes, energia de sobrevivência presa — energia que o seu sistema nervoso gerou para responder a uma ameaça, e que simplesmente não encontrou saída.O corpo percebe o perigo. Recruta tudo que tem: cortisol, adrenalina, batimentos acelerados, músculos em alerta. Prepara você para correr ou lutar. Mas o perigo é um prazo, uma conta, uma conversa que você evita há semanas. Não tem para onde correr. Não tem o que lutar. E então essa energia fica “presa dentro do corpo”.Nos ombros, no estômago, no peito.Isso que você chama de ansiedade. Esses sinais de sobrecarga no seu corpo.

O cérebro, é claro, não suporta o caos. Ele precisa de uma história. Quando o sistema nervoso entra em hiperativação lá embaixo — no vago, no coração, nas vísceras — e manda sinais de alarme para cima, o córtex faz o que sabe fazer: encontra um culpado.O corpo sente: aperto, tremor, falta de ar. A mente traduz: “Vou passar mal. Vou falhar. Algo terrível está prestes a acontecer. “A mistura entre a sensação física e a narrativa mental é o que chamamos de ansiedade. É possível sim, você aprender a separar as duas — a rastrear a sensação sem imediatamente transformá-la em história e frases fatalistas — então algo curioso acontece: resta apenas calor no peito, batimento acelerado, uma contração aqui e ali. Surge a percepção das Sensações. E sensações são mutáveis. É a linguagem do corpo nos contando uma história, com sua “voz sem palavras”! E aí a comunicação começa a acontecer!

Tem ainda uma terceira camada, que encontro com muita frequência no consultório: a ansiedade não está no presente.O trauma e o estresse crônico alteram nossa linha de base de descanso e relaxamento. O corpo se distancia da capacidade de se autorregular e passa a escanear o ambiente em busca de ameaças o tempo todo — mesmo quando não há nenhuma. A hipervigilância que você sente agora pode ser um eco de algo que aconteceu anos atrás, uma resposta de sobrevivência que começou e nunca terminou. O corpo ainda está tentando resolver uma crise que já passou.É por isso que a pergunta essencial não é “por que estou ansioso?” — que nos leva direto para a história, para a ruminação, para mais espiral. A pergunta é outra:Onde essa energia está no meu corpo agora? Como ela se move? O que acontece se eu simplesmente a observo e acompanho?Rastrear sensações sem julgamento — permitir um tremor, uma respiração que vem funda e espontânea, às vezes um choro que não tem nome — é o sistema nervoso descarregando o que ficou preso. A ativação cede. A mente se acalma. E a ansiedade some, porque ela era um estado biológico temporário, não a sua identidade.

Não é rápido.

Não é linear.

Mas é possível. E começa por parar de tratar a ansiedade como um inimigo a ser eliminado, e passar a tratá-la como um mensageiro — um sinal de que o seu corpo ainda está tentando te proteger de algo que, talvez, já não precise mais de proteção e surge uma outra relação com seu corpo, sua mente e seu sistema nervoso, de forma surpreendentemente simples.

Rose Zigunovas é psicóloga em Porto Alegre e Canoas, com especialização em trauma transgeracional e Somatic Experiencing. Atende presencialmente e online.

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